Quem foi Sigmund Freud?

Conteúdo desenvolvido e validado clinicamente por Ana Laura Moraes Martinez (CRP 06/73670) — Psicanalista, mestre e doutora pela USP; experiência de 23 anos no consultório privado, docente sobre a obra e o pensamento de Freud, coordenadora de grupos de estudo e supervisão online.

É muito difícil e desafiador tentar descrever em poucas linhas quem foi o controverso e brilhante homem Sigmund Freud, ao mesmo tempo, ícone do moderno século XX e amante do romantismo alemão.

A propósito, as linhas que se seguem foram inspiradas em minhas leituras da ótima biografia “Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo“, lançada em 2016 por Elisabeth Roudinesco.

Um pouco de sua história

Schlomo Sigismund Freud nasceu no dia 06 de maio de 1856 em Příbor, um município da República Tcheca na região da Morávia.

Filho mais velho do segundo casamento de Kalman Jacob Freud (41 anos) com a jovem Amália Nathansohn (21 anos), que se casaram sem amor, viria a ter mais sete irmãos, sendo dois meninos e cinco meninas; além de seus meios-irmãos mais velhos do primeiro casamento do pai.

Mas se é verdade que o filho que mais recebera o amor da mãe é aquele que mais longe irá na vida – tese que as psicanálises costumam comprovar – Freud, que era chamado por sua adorada mãe de “meu Sigi de ouro”, prometia desde cedo ir muito longe.

Graças a este grande investimento materno endossado pelo pai, fora o primeiro da longa linhagem dos Freud a ter acesso na juventude à outra carreira que não a de pequeno negociante, como havia sido Jacob a vida toda.

Formação acadêmica

Tantas condições favorecedoras, somadas a um espírito de gênio, desde pequeno apreciador das mitologias gregas e do estudo sistemático de outras línguas, fizeram de Freud talvez o médico da alma mais original e revolucionário que a humanidade jamais havia visto.

Sempre sedento de saber e, sonhando com glória e conquista, cogitou no momento de entrar para a universidade entre seguir carreira política, ser filósofo, jurista e naturalista, acabando por se decidir pela medicina.

Ingressou na Universidade de Viena em 1873, aos 17 anos, para seguir seus estudos científicos e médicos, que foram concluídos em 1881 com a defesa de sua tese de doutorado. Em seguida, foi nomeado como assistente de seu mestre Ernst Brucke. Ao mesmo tempo, apenas um ano antes, em 1880, o médico vienense Breuer, que viria a ser amigo de Freud e ter um papel muito importante em sua carreira, cuidava da paciente que viria imortalizar os primórdios da psicanálise, a famosa Anna O. (Bertha Pappenheim).


Primeiros passos

Atormentado pela necessidade financeira, que demoraria a abandonar Freud, decidiu especializar-se na clínica, fazendo estágios de observação de doentes mentais, o que viria a impressioná-lo enormemente.

Assim, no ano de 1883 permaneceu cinco meses sob a orientação de Theodor Meynert, grande mestre da psiquiatria da época.

Lá pudera observar a falta de preocupação dos médicos com a fala dos doentes e a tese dominante de que todas as anomalias psicológicas derivavam de um substrato orgânico, visão com a qual Freud não concordava.

Intrigado com as doenças nervosas e em busca de explicações não orgânicas para elas, Freud considerou que devia buscar novos conhecimentos na escola psiquiátrica francesa muito mais evoluída que a austríaca.

O contato com Jean-Martin Charcot

Permaneceu 04 meses e meio estudando com ele, enquanto pensava em seu casamento com a noiva Martha, que conhecera em 1882 e que ficara em Viena esperando por ele.

Por isso recorreu em 1885 ao maior especialista em histeria na época: Jean-Martin Charcot, o grande mestre do hospital La Salpêtrière. Esta doença desafiava o saber médico, pois suas contraturas, cegueiras e paralisias não encontravam nenhuma correspondência orgânica.

Ao retornar, trouxera em sua bagagem mental os rudimentos daquilo que viria a ser sua primeira concepção dinâmica do inconsciente, idealizado a partir da observação das hipnoses de Charcot.

E também, o conhecimento murmurado por Charcot no ouvido do jovem Freud, de que as verdadeiras causas do mal convulsivo histérico eram genitais. Este ensinamento sobre o papel da sexualidade recalcada nas desordens nervosas Freud não só não esqueceria, mas levaria às últimas consequências.

Ainda em busca de instrumental para fazer sua grande revoluçãoFreud visita em 1889, em Nancy, o médico Hippolyte Bernheim que vinha tratando pacientes por meio da sugestão hipnótica. Com ele, aprendera os rudimentos daquilo que iria se constituir como sendo a sua “terapia pela fala”.


Os primórdios da psicanálise

Assim, já em 1889 estavam postos todos os elementos – sugestão, hipnose, visão dinâmica da mente – que Freud viria a sintetizar a seu modo, criando um método de tratamento das desordens mentais diferente de todos os outros já inventados, ainda que herdeiro de cada um deles.

Retornando a Viena e se constituindo como médico da alma, Freud passou a testar os métodos aprendidos com seus mestres ao mesmo tempo em que os modificava de acordo com a necessidade de cada paciente.

Assim, logo percebeu que a sugestão hipnótica não funcionava sempre e desta conservou tão somente a posição deitada do paciente no divã, mais cômoda.

Estava com isso dando os seus primeiros passos rumo ao que viria a se constituir propriamente como o método psicanalítico.

Paulatinamente foi substituindo o método da sugestão hipnótica pelo método da livre associação, o que o fez chegar ao conceito da repressão e da resistência.

Além disso, dissecou a origem sexual da hipnose, chegando com isso ao conceito de transferência; tudo isso vivido em seu grande laboratório clínico situado à Rua Bergasse, 19, cercado de seus seis filhos, de sua esposa Martha e sua cunhada Minna, de seus cachorros Wolf e a pequinesa Lun-Yu, de seus charutos e livros e de suas queridas coleções de arte antiga, sobretudo egípcia.

Graças a sua perspicácia clínica e ousadia de pensamento, chegara assim na data mítica de 1900, virada do século, ao que viria a ser o seu conjunto de conceitos fundamentais constituído pelas noções de repressão e resistência, de libido e de transferência e pelo papel econômico do amor e da falta nas desordens mentais.


A revolução simbólica de 1900

Com “A Interpretação dos Sonhos”, que Freud esperara convenientemente 01 ano, para publicá-lo na data mítica da virada do século, ele finalmente funda sua nova teoria do psiquismo.

Este livro, junto de “A Psicopatologia da vida quotidiana” (1901) e “Chistes e sua relação com o inconsciente” (1905) viriam a consolidar uma nova concepção de homem.

Nela Freud não se cansa de mostrar, por meio de análise de sonhos, de chistes e de pequenos atos banais do quotidiano o quanto somos habitados por um Outro cujo sentido sempre nos escapa.

Com isso firma uma verdadeira revolução simbólica na qual pretendia mudar o homem revelando a ele a face oculta de seus desejos que se expressam de forma distorcida e disfarçada exigindo, portanto, uma necessidade de decifração.

A partir de então, e pelos próximos 20 anos aproximadamente, ele só fará aprofundar e ampliar seu corpo teórico, dando-lhe mais consistência, sobretudo, a partir de suas formulações sobre o narcisismo em 1914, que lhe permitirão ampliar sua compreensão acerca da libido do eu e do seu envolvimento nas psicoses.

Disto que podemos considerar o último movimento de sua obra, chegará finalmente à sua última grande revolução, a ser feita em 1920 com a proposição da dualidade pulsional entre os impulsos de vida e de morte.

Acompanhando o desejo puro do ser humano por se autodestruir que ganhou proporções catastróficas e mundiais na eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 e, observando na clínica o apego dos doentes ao próprio sofrimento, Freud, não sem tristeza e pesar, chegou à conclusão de que os impulsos de morte nunca poderão ser vencidos ou completamente mitigados.

Cabe tão somente ao homem aprender a conviver com eles e a melhor gerenciá-los.

Emigração para a Inglaterra

E, no que será talvez o episódio mais triste de sua vida, terá de deixar às pressas sua tão ambivalentemente amada Viena, ajudado por Marie Bonaparte e outros, em consequência da invasão alemã em 04 de junho de 1938, não antes de ver sua filha Anna Freud (a mesma da foto do início do texto) ser chamada a depor no quartel-general da Gestapo a respeito de suas “atividades subversivas”.

Ao final de tudo, sob o domínio da barbárie, uma suástica foi afixada na entrada da casa de Freud.

Já muito debilitado por um câncer no palato que no início de 1938 se alastrara até a base da órbita e causava dores insuportáveis, emigrou para a Inglaterra onde morou em Maresfield Gardens até a sua morte, em 23 de setembro de 1939 às três horas da manhã.

A pedido de Freud, que havia solicitado ao amigo e médico Max Schur para acabar com o seu sofrimento chegado o momento, escolhera a morte por sedação profunda e contínua.

Morrera, portanto, com a mesma fidelidade a si mesmo com a qual vivera.

Seu corpo fora cremado no Golders Green Crematorium, sem nenhum ritual, e suas cinzas guardadas em um vaso grego que remetia a uma oferenda.

Na despedida, Stefan Zweig pronunciou em alemão uma linda oração de agradecimento ao mestre:

Obrigado pelos mundos que nos abriste e que agora percorreremos sozinhos, sem guias, sempre fieis a ti, sempre pensando em ti com veneração, amigo mais precioso, mestre mais amado, Sigmund Freud”.

Referência bibliográfica

Roudiesco, Elisabeth. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Trad. André Telles. 1ª. Edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.


Perguntas Frequentes sobre Freud e Psicanálise

O que Freud descobriu na psicanálise?

Freud descobriu o inconsciente — a existência de processos mentais que operam fora da consciência e influenciam comportamentos, emoções e sintomas. A psicanálise demonstrou que a mente humana é governada por conflitos entre desejos, medos e proibições, muitos deles originados na infância.

O que é o Id, o Ego e o Superego na psicanálise de Freud?

São as três instâncias da personalidade segundo o modelo estrutural freudiano:
• Id — Princípio do prazer; desejos e impulsos inconscientes • Ego — Princípio da realidade; mediação entre desejos e exigências externas na psicanálise • Superego — Moral internalizada; ideal do eu e consciência moral

O que significam os sonhos segundo a psicanálise de Freud?

Freud considerou os sonhos a realização disfarçada de desejos. Na superfície, o conteúdo manifesto (imagens da narrativa); em profundidade, o conteúdo latente (desejos reprimidos). A interpretação dos sonhos é uma das principais técnicas psicanalíticas desenvolvidas por Freud.

Freud usava cocaína? Como isso afeta a psicanálise?

Sim, no início de sua carreira Freud estudou a cocaína como anestésico e estimulante, inclusive autoprescrevendo-a. Abandonou o uso posteriormente, quando reconheceu seus efeitos destrutivos. Esse episódio não invalida as descobertas científicas da psicanálise freudiana.

Qual a teoria da personalidade de Freud na psicanálise?

Freud propôs duas teorias na psicanálise: a tópica (consciente, pré-consciente, inconsciente) e a estrutural (Id, Ego, Superego). Ambas explicam como a personalidade se organiza através de conflitos entre instâncias psíquicas e mecanismos de defesa freudianos.

Por que Freud fala tanto de sexualidade na psicanálise?

Freud ampliou o conceito de sexualidade para além do genital na psicanálise, incluindo todo investimento de energia libidinal. As fases psicossexuais (oral, anal, fálica) descrevem o desenvolvimento emocional, não apenas comportamentos sexuais.

Como Freud morreu?

Freud faleceu em 23 de setembro de 1939, em Londres, para onde fugira da ocupação nazista na Áustria. Optou pela eutanásia após anos de sofrimento com câncer de mandíbula, consequência de décadas de vício em charutos.

Qual a diferença entre psicanalista e psicólogo?

O psicólogo é graduado em Psicologia. O psicanalista possui formação específica em psicanálise, com análise pessoal concluída e supervisão clínica, habilitando-o a aplicar o método terapêutico freudiano.

Como encontrar um psicanalista freudiano em Ribeirão Preto?

Pacientes podem buscar profissionais qualificados com sólida formação em psicanálise. A Dra. Ana Laura atende online ou presencialmente em seu consultório localizado em Bonfim Paulista (Alphaville 3), em Ribeirão Preto, oferecendo um espaço seguro para o método de Freud.


Dra. Ana Laura Moraes Martinez (CRP 06/73670) é Psicanalista com mais de 23 anos de experiência em prática clínica. É Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista na obra freudiana, atua como docente de Pós-Graduação, supervisora clínica e é autora do livro ‘O divã no dia a dia’. Na clínica, dedica-se ao acompanhamento de adolescentes, adultos e possui forte atuação no acolhimento intercultural de brasileiros residentes no exterior.

Referência bibliográfica (ABNT):

SHEDLER, J. The efficacy of psychodynamic psychotherapy. American Psychologist, v. 65, n. 2, p. 98-109, 2010. Disponível em: https://www.apa.org/pubs/journals/releases/amp-65-2-98.pdf. Acesso em: 3 jul. 2026. Página citada: 103.

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